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Como desenhar ambientes que possibilitem vivências e trocas?
Uma escola é sinônimo de uma comunidade de aprendizagem? Sabemos que não necessariamente. Mas podemos construir caminhos.
Promover a interação e colaboração entre estudantes é certamente um grande desafio. Mas e se começarmos pela possibilidade de os próprios professores viverem experiências genuínas de construção coletiva do conhecimento?
É essa experiência que buscamos desenhar nos encontros formativos que oferecemos. Não para que seja possível replicá-las exatamente nas salas de aula, mas para que cada professor possa reconhecer, a partir da própria experiência, que aprender junto não é apenas uma questão de metodologia.
Encontramos nas propostas “mão na massa” uma possibilidade para promover essas vivências entre educadores. Curiosamente, a “oficina” não começa quando distribuímos materiais ou propomos uma construção. Começa quando convidamos o grupo a apreciar uma leitura “disparadora”. Pode ser um trecho de um livro, uma imagem, uma obra de arte, um pequeno vídeo ou outro objeto da cultura. A nossa intenção é oferecer uma referência compartilhada.
Cada professor chega trazendo sua própria bagagem, sua história, os desafios da sua escola, da sua turma, do território onde atua. Há quem ensine Ciências, quem venha da Matemática, da Arte, da Educação Infantil, do Ensino Médio. Há quem tenha anos de experiência e quem esteja iniciando a carreira. Não buscamos apagar essa diversidade. Ao contrário. Ela é uma das maiores riquezas do encontro.
Mas, para que essa diversidade possa dialogar, é interessante haver algum solo comum, um ponto de partida… uma pergunta provocadora tem então a função de produzir os primeiros deslocamentos e interações.
Não uma pergunta para verificar quem sabe mais. Nem uma pergunta com resposta certa. Uma pergunta suficientemente aberta para acolher diferentes interpretações e suficientemente potente para colocar todos em movimento.
Só então os materiais aparecem.
Quando colocamos os “kits” sobre as mesas — ou convidamos o grupo a se servir em grande “buffet” de materialidades — o olhar de estranhamento é frequente. Conseguimos até ler pequenos balões de pensamento surgindo pela sala:
“O que faço agora?”
“Como será que funciona?”
“Nunca mexi nisso antes…”
“Pode ser interessante…”
Pouco a pouco, alguém experimenta um encaixe. Outra pessoa testa um mecanismo. Um terceiro observa, sugere, pergunta. Ainda não existe um plano claro. Existe receio e também curiosidade.
Até que alguma coisa acontece.
Uma ideia encontra outra. Uma observação feita durante a leitura reaparece. Alguém lembra de uma experiência da própria escola. Outra pessoa faz uma conexão inesperada com algo que já viu em algum outro contexto. Aos poucos, uma narrativa começa a ganhar forma.
Nesse momento, os materiais deixam de ser apenas materiais. Tornam-se aquilo que Seymour Papert chamou de “objetos para pensar com”: recursos que ajudam a construir ideias, estabelecer relações e tornar o pensamento visível enquanto ele acontece.
Enquanto encaixam, testam, mudam de ideia e refazem, as pessoas também negociam sentidos, constroem hipóteses, argumentam, escutam, cedem, convencem-se mutuamente. O pensamento circula.
No primeiro semestre de 2026 tivemos a oportunidade de oferecer um encontro formativo em parceria com a EMFORPEF da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Professores de diferentes áreas do conhecimento se inscreveram. Muitos tinham assumido a função de POED (Professor Orientador de Educação Digital) mas eram provenientes de diferentes disciplinas, desde História, Artes, Língua Portuguesa e até Educação Física. A pauta era “desmistificar a abordagem STEAM” (acrônimo para Science, Technology, Engineering, Arts and Math) e a proposta que desenhamos tinha como pretexto a construção de autômatos. O ponto de partida, o solo comum que oferecemos, foi a leitura do livro de imagens Bárbaro, de Renato Moriconi. A pergunta provocadora: “o que mobiliza os seus estudantes?”. A partir daí, cada grupo foi convidado a montar um autômato e a criar personagens em movimento em uma espécie de mini palco/cenário, para responder à provocação, criando uma cena visível e compartilhável.
Todos partiram da mesma leitura, da mesma provocação e receberam exatamente o mesmo kit de materiais. Ainda assim, nenhum autômato ficou parecido com outro.
Cada grupo construiu uma narrativa diferente. Alguns criaram situações bem-humoradas, outros ainda transformaram o mecanismo em metáfora para dilemas da adolescência, do dia a dia na escola ou da profissão docente.
Esse talvez seja um dos aspectos mais bonitos da experiência. Não esperamos que os grupos produzam objetos semelhantes. Nossa aposta é que uma referência comum com uma provocação potente possa abrir espaço para elaborações singulares, construções que dialoguem, mas que tragam pontos de vista bem variados.
O autômato, nesse sentido, foi um objeto mediador. Um terceiro elemento que desloca a conversa do plano das opiniões para o plano da construção compartilhada. Em vez de discutirmos apenas ideias abstratas, proporcionamos uma vivência em que os professores podem pensar juntos sobre algo que vai sendo construído diante dos olhos.
Nós, formadoras, também buscamos ocupar esse lugar terceiro. Não nos apresentamos como especialistas que já sabem as respostas. Também compartilhamos nossos processos, as perguntas que ainda nos acompanham, os desafios que seguimos enfrentando em nossas próprias práticas. Chegamos com uma estratégia a mais para colocar em circulação. Não com a melhor estratégia. Essa postura marca a natureza do encontro.
Quando ninguém precisa ocupar o lugar daquele que detém todo o conhecimento, constrói-se um ambiente que valoriza o reconhecimento dos diversos saberes distribuídos pela sala.
Uma professora tem um percurso no Teatro. Outra já domina circuitos elétricos. Um professor tem referências de mecânica. Outro faz uma conexão com a História Medieval. Alguém lembra de uma cena que se repete no corredor da escola. Um deles encontra uma solução técnica. Outra pessoa encontra um fio para a narrativa que encanta o grupo… Os materiais sobre a mesa coletiva emprestam formatos, dimensões, texturas, e vão compondo figuras e ideias que não estavam lá antes.
O autômato nasce justamente dessa costura. Não porque todos saibam as mesmas coisas, mas porque cada um pode oferecer algo. Mais do que aprender a construir um autômato, os professores vivenciam um ambiente em que o conhecimento é produzido socialmente.
Um ambiente em que escuta, autoria, investigação, expressão, colaboração e diversidade de repertórios deixam de ser discursos e tornam-se experiências concretas.
Talvez seja por isso que essas vivências tenham tanta potência.
Elas permitem que os professores sintam, com a mão na massa, aquilo que tantas vezes desejamos para nossos estudantes.
O entusiasmo de descobrir junto. O desconforto produtivo de não saber. A confiança de poder arriscar. E, talvez mais importante, a experiência de pertencer a uma comunidade que aprende.
Trata-se de criar condições para que os professores vivam uma cultura de aprendizagem que, depois, possa encontrar novos modos de florescer em suas salas de aula, em suas escolas e nas comunidades das quais fazem parte.
Por Simone Kubric Lederman
Gestora Pedagógica e Cofundadora do Instituto Catalisador


