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Contar histórias é uma das práticas mais antigas da humanidade. Muito antes de existirem livros, já existiam os griôs (contadores e guardiões da tradição oral africana, responsáveis por preservar histórias, saberes e a memória de um povo). É por isso que histórias antigas sobrevivem até hoje: elas foram contadas, de boca em boca, ao longo de gerações. Vejo a mediação de leitura e a contação de história como duas formas atuais de manter viva essa tradição tão antiga, e é sobre isso que quero falar aqui.
Sou contadora de histórias desde 2022. Foi nesse ano que entrei como auxiliar de bibliotecária na Biblioteca do CEU das Artes 1º de Maio, no bairro Primeiro de Maio, em Osasco – SP. Foi lá que conheci o Tiago Kinzari, bibliotecário e contador de histórias que já tinha uma trajetória em projetos de contação pela cidade de São Paulo. Como eu vinha do teatro, ele me convidou para contar histórias junto com ele.
A primeira história que contamos foi “A Princesa Chifruda”, do livro “Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões”, de Ricardo Azevedo. Ensaiávamos algumas vezes, às vezes até com as crianças assistindo ao ensaio aberto, e depois organizávamos um dia para apresentar de verdade. Foi gostando disso que descobri que dava pra ir além: como muitas histórias do Ricardo Azevedo são nordestinas, começamos a criar baiões para acompanhá-las, cantando e tocando enquanto contávamos. Eu não sabia tocar quase nada de percussão até então, mas fui aprendendo aos poucos. Foi aí que nasceu a CIA Canta um Conto, projeto que mantenho até hoje e onde invento músicas para cada história que conto.
Quando entrei no Instituto Catalisador, já carregava essa bagagem toda da CIA Canta um Conto. Fui implementando aos poucos. Primeiro veio a música “Vamos lá, que a nossa história já vai começar” de chamada, aquela que uso pra reunir as crianças antes de qualquer momento de leitura, junto ao pandeiro. E isso já despertava muito os olhares, a atenção, para os momentos seguintes.
A virada de chave aconteceu quando estávamos organizando um encontro em torno do conto “A Ponte”, do livro Como mudar o mundo? de Stela Barbieri e Fernando Vilela. Era uma história longa demais para o tempo ideal de uma mediação de leitura, que costuma ser em torno de 15 minutos. Foi aí que propus adaptar a história para uma contação. Fiz um estudo, adaptei o texto e criei uma versão contada, sem música dessa vez, mas com efeitos sonoros: um barulho de pandeiro quando alguém caía, uma música de casamento quando era a cena de um casamento. Foi a primeira história que contei aqui, e deu muito certo. Até porque, não tem certo ou errado quando se trata de aproximar as crianças da literatura.
A mediação de leitura é mais próxima, mais reflexiva. É o momento de fazer perguntas, de deixar a criança se identificar com o livro, de construir junto o significado da história. É um exercício de escuta. Não tem pressa, o livro em si já é o centro, e a conversa em volta dele é o que aprofunda a experiência.
A contação de história, por outro lado, aposta na performance: voz, corpo, instrumentos, efeitos sonoros. É um convite mais imediato, a história ganha ritmo, suspense, surpresa, e a criança entra na cena quase sem perceber. E isso tem um efeito que percebo direto na prática: ela prende a atenção de um jeito diferente. Vivemos num tempo em que tudo é rápido, a internet, as redes, os vídeos curtos, e sustentar a atenção de crianças e adolescentes dentro de uma biblioteca ou de um espaço literário ficou mais difícil. Os instrumentos musicais, os bonecos ou máscaras, todos esses complementos ajudam a trazer os olhos de volta para a história.
Hoje, aqui no Instituto Catalisador, uso os dois juntos. A mediação entra para aprofundar a leitura, para construir junto com a criança o significado da história. A contação entra para despertar o interesse e sustentar a atenção, trazendo o corpo, a música e a performance pra cena. Um não substitui o outro, cada um chega ao mesmo lugar por caminhos diferentes, e talvez seja exatamente aí que esteja a força de ter os dois por perto.
E pra você, o que mais te encanta? O que você prefere: essa proximidade da mediação de leitura ou a magia de uma contação de histórias?
Por Amanda Oliveira
Educadora no Instituto Catalisador

