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Mão na Massa e Transformações

18/09/2026
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Transformação: ato ou o efeito de mudar, de passar de uma forma, estado ou condição para outra.

Nas Rodas de Invenções, a exploração da Roda Mão na Massa e a Roda de Compartilhamento costumam gerar aprendizagens que vão além do objetivo declarado para a atividade do dia. É no meio da exploração de um material, na hora de decidir o que construir ou no momento de contar para os amigos o que foi feito, que a gente vê acontecer aproximações, aumento da confiança das crianças em si próprias e nos colegas   e trocas que não tinham espaço antes.

Este relato apresenta duas experiências vividas em contextos distintos: a de Agatha, no projeto Rodas de Invenções: Leitura, Escrita e Criatividade, e a de Ana, no projeto Rodas de Invenções: O Futuro é Agora. Mais do que histórias sobre mudanças individuais, os dois episódios nos convidaram a refletir sobre uma questão que atravessa nossa prática: o que acontece quando observamos atentamente as diferentes formas de participação das crianças e reorganizamos o ambiente para que cada uma possa encontrar seu próprio modo de entrar na experiência?

Quando chegamos à escola em março de 2026, no projeto Rodas de Invenções: Leitura, Escrita e Criatividade, conhecemos a Agatha, uma menina de 8 anos. Naquele início sua forma de interagir com os colegas e também com a professora era ainda bastante restrita. Diante disso, começamos, junto com a professora, um processo de observação cuidadosa: como trabalhar a socialização da Agatha no contexto das Rodas de Invenções?

Foram meses de pequenas alterações, mas sempre respeitando os limites de Agatha. Fizemos pequenos ajustes na formação dos grupos, tentativas de puxar conversa… Até que, na Rodas “Brincando com Sombras” Agatha estava em um grupo diferente do habitual, longe da amiga de sempre. Não só ela realizou todas as etapas da atividade como nos chamou para mostrar o que tinha feito. Foi um momento de muita emoção para toda a equipe, pois Agatha explicou o que via nas sombras, realizou seu registro por escrito e, mais do que isso, conversou com integrantes do grupo sobre as diferentes imagens que cada um enxergava. Não se tratava apenas de ter concluído uma atividade: naquele contexto, ela encontrou uma maneira de tornar sua produção visível para os outros e de estabelecer uma troca a partir dela!

A história de Ana aconteceu em uma instituição parceira do projeto Rodas de Invenções: O Futuro é Agora, em um percurso que previa apenas quatro encontros . Ana chegou somente no segundo encontro, uma menina quieta e reservada. Durante as explicações da oficina, ficou mais afastada do restante dos colegas. Conversando com a educadora que acompanhava a turma, soubemos que esse era um comportamento frequente: Ana raramente participava de qualquer atividade que demandasse uma ação mais concreta como pintar, modelar, construir, mas adorava ler e gostava muito de livros. 

Com essa informação em mãos, e percebendo que ela permaneceria sozinha com a educadora em uma mesa à parte, levamos até ela um kit Rodas de Invenções e o livro que lemos no início do encontro, só para ver se topava conhecer as peças de perto. Foi o suficiente. Ana aceitou o convite. Começou manipulando os materiais, depois construiu sua própria invenção e, ao final do encontro, quando convidada a apresentar oralmente aos colegas seu trabalho, aceitou, orgulhosa e feliz pelo o que tinha feito!

No encontro seguinte, outra participante também demonstrou vontade de fazer a atividade sozinha, e tivemos a ideia de juntar as duas. O destino ajudou: algumas crianças chegaram atrasadas naquele dia e acabaram se integrando ao grupo que estava se formando. O resultado foi bonito de ver, observamos os participantes ajudando uns aos outros, procurando compreender as ideias das colegas e tomando decisões conjuntamente sobre a construção. No encerramento, apresentaram juntos aquilo que haviam criado. 

Os dois episódios aconteceram em tempos, instituições e circunstâncias muito diferentes e, por isso, não pretendemos estabelecer entre eles uma equivalência. O que os aproxima é a pergunta que provocaram em nossa equipe sobre as condições que oferecemos para que diferentes formas de participação possam emergir.

Em ambos os casos, a mudança não aconteceu porque exigimos que as crianças participassem mesmo estando visivelmente desconfortáveis. Nosso movimento foi outro: observar, escutar, fazer pequenos ajustes no ambiente e oferecer diferentes possibilidades de aproximação. Os materiais tiveram um papel importante nesse processo porque constituíram um objeto compartilhado sobre o qual era possível agir, conversar, mostrar, perguntar e construir junto. A criação tornou-se, assim, também uma possibilidade de mediação entre a criança e o grupo.

Essas experiências reforçaram para nossa equipe a importância de uma escuta afetiva que não significa apenas acolher, mas observar com atenção, reconhecer diferentes formas de estar e participar e transformar a própria prática a partir daquilo que as crianças nos comunicam — inclusive quando não o fazem com palavras.

O contexto das Rodas de Invenções favorece essa observação, essa escuta e uma intervenção cuidadosa, voltada a ampliar as possibilidades de participação. Nesse processo, percebemos também a importância de variar as parcerias, para que as crianças possam vivenciar outros lugares no grupo e inventar modos de ser e estar nesse coletivo. 

Talvez uma das potências das Rodas de Invenções esteja justamente aí: em construir ambientes suficientemente abertos para que elas possam experimentar outras formas de se expressar e se relacionar. Agatha e Ana, cada uma em seu tempo e contexto, encontraram naquilo que haviam criado algo que desejaram tornar visível aos outros.

E, quando uma criança decide mostrar ao mundo aquilo que fez, talvez não seja apenas a invenção que esteja sendo compartilhada. Há também um pouco de si sendo colocado em circulação.

Texto escrito por Amanda Oliveira e Franciele Gomes, com revisão e contribuições de Simone Kubric Lederman.